Com programas sociais e inteligência, Niterói reduz homicídios a um terço

Latrocínio zero e queda de 70% em violência letal: “decidimos disputar jovem a jovem com o crime organizado”, diz o prefeito

Atualizado em 25/05/2026 às 12:05, por Edição de Sabrina Lorenzi.

Com programas sociais e inteligência, Niterói reduz homicídios a um terço

Primeira turma formada no programa Território da Juventude, que integra o Pacto Niterói contra a Violência

Comparar os indicadores atuais de segurança pública de Niterói com os do final da década passada causa surpresa.  Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que a cidade reduziu em 83,3% os roubos de rua entre 2018 e 2024. A queda é de 70% nos homicídios em 6 anos – ritmo mais acelerado do que se viu em Medellín e Nova Iorque, casos globais de sucesso.

O Brasil ficou preso por muito tempo a um falso dilema entre políticas sociais e policiamento. Em Niterói, mostramos que segurança pública eficiente é resultado da integração de inteligência policial com investimento social estratégico. Não é um ou outro: é a combinação dos dois que funciona

Rodrigo Neves

Em 2018, a taxa de violência letal em Niterói era de 35,8 mortes por 100 mil habitantes, acima dos 29,7 registrados no Rio de Janeiro. Agora, em 2025, o índice niteroiense despencou para 11 mortes por 100 mil habitantes — exatamente a metade das 22 registradas na capital no mesmo período. 

A queda também é expressiva nos roubos: Niterói passou de 1.738,5 por 100 mil habitantes em 2018 para apenas 331,3 em 2025. No Rio, os números caíram de 1.817,01 para 915,6. Os dados são do Instituto de Segurança Pública (ISP), com cruzamento das estimativas populacionais e do Censo Demográfico do IBGE (2018-2024).A percepção da população acompanha a melhoria nos indicadores de segurança: em 2018, 81,5% dos moradores consideravam a cidade violenta ou muito violenta; em 2025, esse percentual caiu para 36,6%. Os dados são da Pesquisa de Vitimização realizada pela Prefeitura para a construção do Pacto Niterói Contra a Violência.

“O Brasil ficou preso por muito tempo a um falso dilema entre políticas sociais e policiamento. Em Niterói, mostramos que segurança pública eficiente é resultado da integração de inteligência policial com investimento social estratégico. Não é um ou outro: é a combinação dos dois que funciona”, afirma o prefeito Rodrigo Neves.

A força dos programas sociais

Os programas sociais garantem sustentação de longo prazo à redução da violência. Entre eles estão o Poupança Escola, que beneficia 9.600 estudantes; o Niterói Jovem Eco Social, com 1.500 jovens recebendo bolsa para cursos gratuitos de qualificação; a Escola da Família, que apoia gestantes e famílias na primeira infância; e a Rede Acolher, que acompanha egressos do sistema prisional e seus familiares. Essas iniciativas integram o Pacto Niterói Contra a Violência, programa municipal criado em 2018 com orçamento de R$ 820 milhões.

O programa Território da Juventude integra um dos 18 eixos do Pacto. Iniciativa da Secretaria Municipal de Assistência Social e Economia Solidária, em parceria com o Instituto de Projetos Socioambientais e a Plataforma Urbana Digital Viradouro (PUD), o programa fomenta o protagonismo juvenil e incentiva o exercício da cidadania com base em políticas públicas de prevenção à violência, cultura de paz e inserção social.

A primeira turma do programa Território da Juventude foi concluída em 2025. A Prefeitura de Niterói certificou 50 jovens que participaram de diversas oficinas gratuitas no Complexo do Viradouro. 

Ao lado da vice-prefeita, o prefeito Rodrigo Neves e o secretário Elton Teixeira. Foto: Divulgação Prefeitura de Niterói

“Nosso público-alvo são os jovens que não estudam e não trabalham. Temos resultados objetivos de jovens que voltaram para a escola e que começaram no mercado de trabalho formal. É muito importante e simbólico que o programa aconteça aqui no Viradouro, uma comunidade que recebeu intervenções urbanísticas importantes, saneamento básico, asfaltamento e alargamento das ruas, iluminação pública, a Plataforma Urbana Digital, nova quadra poliesportiva e campo de futebol society. Acredito que o programa tem tudo para ser uma referência para a cidade como um todo”, afirmou o secretário municipal de Assistência Social e Economia Solidária, Elton Teixeira.

A secretária municipal de Direitos Humanos, Claudia Almeida, também elogiou o programa e destacou as diversas melhorias promovidas pela Prefeitura na comunidade.

“A gente vê muitos avanços aqui no território da Viradouro, como a contenção das encostas, esse campo magnífico e a Plataforma Urbana Digital, um espaço elegante e acolhedor, de convivência, lazer, construção, de futuro e de diversão. Quero parabenizar todos os formandos. A gente sabe o quanto é bacana manter um programa vivo e vibrante dentro do território. É uma vitória. Vocês são o nosso futuro e estão no caminho certo”, disse a secretária Claudia Almeida.

O projeto está ajudando muitas pessoas que, praticamente, estavam perdidas. Eu era uma delas porque só ficava dentro de casa.

Eduardo Castro

Os jovens alunos receberam benefício da Moeda Social Arariboia, no valor de R$ 750 mensais, apoio que contribuiu para a autonomia juvenil e funcionou como um complemento à renda familiar. Com o auxílio financeiro da Moeda Arariboia, os jovens foram motivados a realizar o primeiro censo da comunidade com orientação do programa.

O aluno Eduardo Castro, de 17 anos, participou de todas as atividades, como as aulas de teatro, audiovisual, inglês e história, mas se identificou mais com a arte da interpretação. “O projeto está ajudando muitas pessoas que, praticamente, estavam perdidas. Eu era uma delas porque só ficava dentro de casa. Isso me ajudou a socializar mais”, disse o jovem, que cursa o primeiro ano do Ensino Médio.

O programa também busca oportunidades em instituições que trabalham com a juventude para inserir os jovens no mercado de trabalho ou fazer um movimento de retorno para a escola. Há essa preocupação de cuidar dos alunos no plano seguinte da etapa da vida deles, após o programa.

“A gente sabe que o jovem periférico tem um tempo mais demorado de evolução, seja de ascensão no mercado de trabalho, seja no movimento de estudo porque eles demoram a acessar as coisas e a ter as informações. É por isso que a gente trabalha na faixa de 15 a 29 anos para também aproveitar essa juventude que não teve essa primeira oportunidade quando eles tinham 15 ou 16 anos”, explicou o coordenador do programa Território da Juventude, Luan Marques.

Niterói sediou em dezembro a  XXX Cúpula da Rede Mercocidades, onde se debateu Segurança Pública. Crédito: Evelen Gouvêa/Divulgação Prefeitura de Niterói

“Quando começamos esse trabalho, em 2018, entendemos que a Prefeitura não podia se furtar à responsabilidade de enfrentar o problema. Investimos em inteligência, ampliamos o efetivo nas ruas, fortalecemos a Guarda Municipal e implementamos programas sociais robustos. Essa integração entre firmeza e ação social mudou a trajetória da cidade”, afirmou o prefeito.

A estratégia integrada para combater a violência reúne também tecnologia e gestão territorial, como o Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp), que articula Guarda Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil e PRF com mais de 600 câmeras; os portais de segurança com câmeras inteligentes, que já contribuíram para a recuperação de mais de 650 veículos roubados; e o uso pioneiro do sistema ShotSpotter, que identifica disparos de arma de fogo em tempo real. Paralelamente, o município ampliou o efetivo da Guarda Municipal — de cerca de 300 para mais de 800 agentes — e passou a destinar R$ 72 milhões anuais para reforçar o policiamento via PROEIS e fortalecer investigações com o RAS.